Notícia

Um Caso de Fronteira no " Douro Novo"

  • 2019-08-13

Um Caso de Fronteira no "Douro Novo" - Carrazeda de Ansiães. Para a História do Vinho do Porto

LAGE, Maria Otília Pereira
Porto: CITCEM, 2018. ISBN: 978-989-8970-03-9

 

Maria Otília Pereira Lage

 

Natural de Carrazeda de Ansiães, investigadora Integrada do CITCEM, membro da Direção do CEPHIS e dos Conselhos Editorial e Redatorial da sua Revista. Mestre em História das Populações, Doutora em História Moderna e Contemporânea (Univ. Minho); Pós-doutorada em Estudos Sociais e Históricos — CES (Univ.Coimbra); Pós-graduada em Bibliotecas, Arquivos, Documentação (Fac.Letras Univ.Coimbra) e Administração Escolar (ESE-Instituto Politécnico do Porto). Foi docente no Ensino Secundário, Superior e Universitário, com cargos de direção. É autora, organizadora e coordenadora de livros, artigos, ensaios, conferências, cursos de Ensino Superior e projetos em áreas da sua especialidade. É membro de Associações Profissionais e Cientificas e Deputada da Assembleia Municipal de Carrazeda de Ansiães.

 

Prefácio do livro

 

Na já vasta bibliografia sobre o vinho do Porto e a sua região de origem, este livro de Otília Lage traça caminhos novos de investigação, conjugando a análise histórica com perspectivas sociológicas e antropológicas, a partir de Carrazeda de Ansiães, terra de «fronteira» entre o «velho» e o «novo» Douro.

Na periferia do «velho Douro» das demarcações pombalinas, o concelho de Carrazeda, apesar das antiquíssimas tradições vitícolas, só gradualmente viria a conhecer a integração de alguns dos seus melhores vinhedos na região demarcada dos vinhos generosos.

Como refere Otília Lage, esse movimento iniciou-se ainda em finais de Setecentos, no tempo das demarcações marianas, quase em simultâneo com a destruição do Cachão da Valeira, que possibilitou a navegação fluvial e a abertura dos extensos territórios do Douro Superior a novos circuitos comerciais que levavam ao Porto e ao mundo. Porém, por razões institucionais e históricas, tal processo de integração foi bastante lento. À excepção de algumas quintas e vinhas com melhor localização, pela proximidade do canal navegável, Carrazeda continuou voltada para a montanha e para a economia tradicional de subsistência, dos cereais e do gado.

Seria preciso esperar pelos efeitos conjugados de outros factores, que, na segunda metade do século XIX, provocaram uma autêntica revolução no vale do Douro e no sistema do vinho do Porto. A perda de poderes da velha Companhia pombalina e a liberalização da produção e do comércio dos vinhos generosos da região duriense, entre 1852 e 1865, possibilitou a entrada no circuito mercantil de vinhos de áreas limítrofes do «velho Douro», antes excluídas da demarcação. A devastação das vinhas do Baixo e do Cima Corgo pelas doenças da videira — o oídio desde 1852 e, sobretudo, a terrível filoxera nas décadas seguintes — impeliu os comerciantes a alargarem a sua carteira de fornecedores de vinhos a viticultores do Douro Superior e de outras áreas. Não menos importante nesse processo de integração, facilitando a difusão das novidades técnicas e o transporte de homens e mercadorias, videiras americanas, adubos, fitossanitários e alfaias, foi a construção da linha ferroviária do Douro, que chegou ao Tua em 1883 e a Barca de Alva em 1887. Foi nessa fase de crise e renovação que a região vinhateira se reinventou, alargando-se até à raia espanhola e passando a integrar o Douro Superior.

A nova Região Demarcada do Douro, redefinida em 1907-1908, veio consagrar essa expansão. Para os concelhos do Douro Superior, e com maior relevância para os de «fronteira» com o Cima Corgo, como os de Carrazeda e da Pesqueira, a sua integração na região demarcada e no sistema do vinho do Porto não foi simples nem linear e implicou transformações sociais e económicas significativas, como destaca Otília Lage. Por outro lado, como acontece na maioria dos concelhos do Douro, só uma parte do território de Carrazeda integra a região demarcada duriense, ficando o restante na região transmontana, o que define outras «fronteiras» no interior do concelho, entre a «montanha» e a «ribeira», «terra fria» e «terra quente», com diferenças substanciais na economia, nas relações sociais e nos quadros de vida.

O processo de integração regional acelerou durante o período conturbado do final da Monarquia e da Primeira República, o que justifica a maior atenção que Otília Lage dedica a esse período. Aliás, este estudo, começou a ser desenvolvido no âmbito do projecto de investigação mais vasto sobre O Douro Vinhateiro na I República. Defesa da Denominação de Origem e construção de uma identidade regional, que levámos a cabo no CITCEM – Centro de Investigação Transdisciplinar Cultura, Espaço & Memória e cujos resultados se corporizaram em diversos artigos, livros e encontros científicos. No caso deste trabalho de Otília Lage, esse período constituiu apenas um ponto de partida, já que a autora avançou para um estudo mais abrangente e transversal sobre a história do vinho do Porto e da sua região de origem, buscando compreender as raízes dos fenómenos que abordou, bem como a sua evolução até aos nossos dias.

Por outro lado, apesar de se centrar em Carrazeda de Ansiães e de dedicar boa parte da sua atenção à microhistória de diversas quintas famosas, como as dos Canais, Bartol, Zimbro, Alegria, Lobazim, Senhora da Ribeira, Chousa e Tua, não se confinou num registo monográfico, antes buscou articular as observações locais no quadro amplo das dinâmicas sócio-históricas da região duriense, bem como nas relações entre quintas produtoras e empresas de comércio de vinhos (Silva & Cosens, Warre, Dow’s, e Martinez Gassiot, Cockburn & Smithes, Symington Family Estates, Grambeira, DouroAnsiães ), numa perspectiva glocal de «estudo de caso alargado». Afinal, como escreveu Torga, «o universal é o local sem as paredes».

 Com os pés na terra-natal, à qual mantém uma relação íntima, Otília Lage desenvolve neste livro, em «conhecimento situado», mais um dos seus estudos sócio-históricos sobre Carrazeda de Ansiães, com sucessivos zooms que alargam a observação a toda a história do Douro, cruzando uma multiplicidade de fontes (impressas, manuscritas e orais), recolhidas quer em diversas bibliotecas e arquivos públicos e privados quer no trabalho de campo. Em diversos sentidos, trata-se de um valioso contributo para a compreensão do processo de produção histórica da região vinhateira do Alto Douro. 

 

 

Porto, Fevereiro de 2018

Gaspar Martins Pereira